cortina fechada
eu sou antes de ser
há algo íntimo em gostar de algo em silêncio.
sem exibir, mostrar ou querer aparentar que gosta. há também o poder que essas coisas exercem sobre você, em silêncio, que jamais teriam em um mundo exposto.
gostar de coisas não faz com que elas sejam quem você é, mas faz com que algo em você pertença a elas.
você não é sua cor favorita, seu livro favorito ou seus hobbies, mas eles dizem coisas sobre você que talvez jamais tenha se permitido ouvir falar. uma inevitável vulnerabilidade habita esse silêncio, talvez o mais próximo de si mesmo que você seja more nele.
eu não sou a cor vermelha, que é a minha favorita, mas sou expressiva e falo demais. algo me diz que me reconheço nessa cor; uma parte de mim vive nela. eu não sou café sem açúcar, mas há algo no amargor do gosto que me lembra o quão amarga eu posso ser às vezes, e talvez eu também me veja nele.
não quero gostar das coisas porque querem que eu queira, mesmo que seja um desejo implícito no contrato social que assinamos ao nascer. há algo de muito vulnerável no que gostamos, no que focamos nosso efêmero e minúsculo tempo: isso diz muito sobre nós.
quero ser quem eu sou em silêncio, porque às vezes me parece que é no vazio e na melancolia que posso ser eu mesma. (quem diria que kafka tinha razão) inconscientemente, deixo pistas para que meu eu consciente me reconheça.
às vezes entendo o motivo de as pessoas se isolarem nas montanhas ou no interior, afastando-se das redes sociais e dos ciclos sociais. acredito que não há nada mais pacífico do que apenas viver.
sempre que se está perto de outras pessoas, somos atores num palco, interpretando um papel que planejaram para nós.
sozinha, atrás da cortina fechada,
apenas.
sou.
“eu sou antes de ser.”
a paixão segundo g.h. - clarice lispector



nossa, sim! as vezes me pego pensando que é tanta pressão pra sermos alguma coisa aos olhos da sociedade moderna, produtivos o tempo todo que eu acabo não me permitindo apenas ser eu mesma, sendo que essa é a melhor parte da vida!! a calmaria, o amor pela simplicidade dos dias tranquilos e da nossa própria existência… me vi nesse texto
E talvez por ser tão raro esse apreço em segredo, torna ainda mais valioso quando construímos um hábito assim, silenciosamente.